Os anjos dos estrangeiros Paysage - Henri Matisse Chegamos da Argélia em 1979, em setembro. A casa alugada, movimentada com a visita de amigos e familiares, apesar de grande, não nos transmitiu uma atmosfera especialmente acolhedora, a não ser pelo terraço, que reunia sempre todos, de todas as idades e origens. Uma imagem me vem: meu pai sentado numa das cadeiras de palha, calçado já com uma sandália de couro, e os seus pés pareceram vestir um conforto novo, como reconhecendo-se na sua terra natal. Senti uma espécie de choque: esse reconhecimento não me acontecia. As coisas e as pessoas não alcançavam meu âmago. Senti uma fratura. Eu continuava estrangeira. As novelas, na época, me pareceram uma linguagem comum, e surgiam nas conversas cotidianas de pessoas variadas. Os comentários me soavam estranhos, mas eu podia confrontá-los com o que tinha visto na véspera, como um elemento que ligava a todos. Depois, muitos anos depois, como penso que sempre, mesmo que com muita ...