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Mostrando postagens de junho, 2024
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Os anjos dos estrangeiros Paysage - Henri Matisse Chegamos da Argélia em 1979, em setembro. A casa alugada, movimentada com a visita de amigos e familiares, apesar de grande, não nos transmitiu uma atmosfera especialmente acolhedora, a não ser pelo terraço, que reunia sempre todos, de todas as idades e origens.  Uma imagem me vem: meu pai sentado numa das cadeiras de palha, calçado já com uma sandália de couro, e os seus pés pareceram vestir um conforto novo, como reconhecendo-se na sua terra natal.  Senti uma espécie de choque: esse reconhecimento não me acontecia. As coisas e as pessoas não alcançavam meu âmago. Senti uma fratura. Eu continuava estrangeira. As novelas, na época, me pareceram uma linguagem comum, e surgiam nas conversas cotidianas de pessoas variadas. Os comentários me soavam estranhos, mas eu podia confrontá-los com o que tinha visto na véspera, como um elemento que ligava a todos.  Depois, muitos anos depois, como penso que sempre, mesmo que com muita ...
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Ofertório Mariana Arraes de Alencar Passando alguns dias em Munique, na casa de minha tia D., fomos juntas, acompanhadas por algumas vizinhas amigas dela, para a caminhada diária no bosque próximo. No caminho, já na entrada da floresta, um senhor nos abordou, que, depois soube, era morador do mesmo prédio da minha tia. Falou longamente com ela, em alemão, eu nada entendendo, o que, obviamente, me fez exercitar uma paciência de uma natureza já experimentada, a de deixar palavras em uma língua desconhecida fluir, apostando que tenham, para alguém, algum sentido, mas, naquele momento, me sentindo uma outsider.  Depois desta incomum e longa palestra, ele se despediu e nós, finalmente, rumamos pela aleia central do bosque, para a caminhada em trilhas variadas, que durava mais ou menos uma hora. Então, em meio aos primeiros passos no bosque nos quais imprimíamos uma velocidade compensatória de nossa forçada detenção, minha tia explicou que o vizinho lhe dissera que sempre ouvia, de seu a...
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Claire e Anne  Mariana Arraes de Alencar No céu aberto pela página em branco, vou em busca de uma pequena imagem, de um sopro de nuvem que possa abrir caminho para o que preciso dizer com delicadeza, com o espanto encantado de quem segue uma canção que surge da memória afetiva.  Olhava para o bosque de árvores frutíferas, no horizonte próximo, na fazenda. Ao me demorar um pouco na contemplação, percebi que tudo parecia mudar, a paisagem mais leve, ampliada; era a presença em mim de Benjamim.  Por décadas essa presença me perseguiria, e depois eu me disse que seria para sempre. Seria meu próprio espírito que, brincando de me fazer companhia, me apresentava essa solução derradeira, e, no entanto espantosamente plena?  Lembro, às vezes, das irmãs gêmeas Anne e Claire, no jardim de infância, em Argel. A presença de uma na vida da outra foi, para mim, uma confirmação da existência de Deus. Anne chamando a professora para socorrer Claire, que um colega chateava durante alg...
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                        Diário para amar Mariana Arraes de Alencar  Selma Guettaf, entre outros, me inspirou a tentar elaborar um blog contínuo, que se quer de uma substância de alento ou de reflexão, um diário para exercitar o prazer da escrita, e, às vezes, a sua dor, também.    Não há assunto prévio, delimitado. Mas o subjetivo, o sutil, a busca pela cura e o autoconhecimento, as possíveis contribuições ao dia a dia de uma época em que parece que as escolhas são essenciais e, ao mesmo tempo, em que nos sentimos impotentes, de repente contemplados por uma iluminação de paz porque o dia está ensolarado e ventilado.  Um contato, uma comunicação, uma abertura.  Uma aventura espiritual e simples, um diário de bordo.