Ofertório

Mariana Arraes de Alencar



Passando alguns dias em Munique, na casa de minha tia D., fomos juntas, acompanhadas por algumas vizinhas amigas dela, para a caminhada diária no bosque próximo. No caminho, já na entrada da floresta, um senhor nos abordou, que, depois soube, era morador do mesmo prédio da minha tia. Falou longamente com ela, em alemão, eu nada entendendo, o que, obviamente, me fez exercitar uma paciência de uma natureza já experimentada, a de deixar palavras em uma língua desconhecida fluir, apostando que tenham, para alguém, algum sentido, mas, naquele momento, me sentindo uma outsider. 

Depois desta incomum e longa palestra, ele se despediu e nós, finalmente, rumamos pela aleia central do bosque, para a caminhada em trilhas variadas, que durava mais ou menos uma hora. Então, em meio aos primeiros passos no bosque nos quais imprimíamos uma velocidade compensatória de nossa forçada detenção, minha tia explicou que o vizinho lhe dissera que sempre ouvia, de seu apartamento, ela tocar piano, exercício diário que ela exerce como uma comunhão com minha avó, e os músicos amados. E lhe pediu que nunca deixasse de o fazer, porque era, para ele, um alento no meio de um dia, de silêncio ritmado, naquele bairro tranquilo de Munique. 

Mulher no Piano de Matisse

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