Os anjos dos estrangeiros
Chegamos da Argélia em 1979, em setembro.
A casa alugada, movimentada com a visita de amigos e familiares, apesar de grande, não nos transmitiu uma atmosfera especialmente acolhedora, a não ser pelo terraço, que reunia sempre todos, de todas as idades e origens.
Uma imagem me vem: meu pai sentado numa das cadeiras de palha, calçado já com uma sandália de couro, e os seus pés pareceram vestir um conforto novo, como reconhecendo-se na sua terra natal.
Senti uma espécie de choque: esse reconhecimento não me acontecia. As coisas e as pessoas não alcançavam meu âmago. Senti uma fratura. Eu continuava estrangeira.
As novelas, na época, me pareceram uma linguagem comum, e surgiam nas conversas cotidianas de pessoas variadas. Os comentários me soavam estranhos, mas eu podia confrontá-los com o que tinha visto na véspera, como um elemento que ligava a todos.
Depois, muitos anos depois, como penso que sempre, mesmo que com muita dificuldade, buscamos um sentido de fraternidade, essa sensação que me veio pelas novelas partilhadas me surgiu pelo contato com o conhecimento espiritual e o fato de todos termos, a nos acompanhar, nosso anjo da guarda. E os anjos estão em todos os lugares e religiões. Essa conexão fraterna que às vezes se dá pelo seu intermédio, nos liga pela nossa natureza essencial. Mesmo que o sentimento de ser estrangeiro nos acompanhe, nos sentimos pertencentes, contemplando um horizonte mais amplo.

Comentários
Postar um comentário