Claire e Anne
Mariana Arraes de Alencar
No céu aberto pela página em branco, vou em busca de uma pequena imagem, de um sopro de nuvem que possa abrir caminho para o que preciso dizer com delicadeza, com o espanto encantado de quem segue uma canção que surge da memória afetiva.
Olhava para o bosque de árvores frutíferas, no horizonte próximo, na fazenda. Ao me demorar um pouco na contemplação, percebi que tudo parecia mudar, a paisagem mais leve, ampliada; era a presença em mim de Benjamim.
Por décadas essa presença me perseguiria, e depois eu me disse que seria para sempre. Seria meu próprio espírito que, brincando de me fazer companhia, me apresentava essa solução derradeira, e, no entanto espantosamente plena?
Lembro, às vezes, das irmãs gêmeas Anne e Claire, no jardim de infância, em Argel. A presença de uma na vida da outra foi, para mim, uma confirmação da existência de Deus. Anne chamando a professora para socorrer Claire, que um colega chateava durante alguma brincadeira: naquele apelo coube inteira a evidência de que os anjos da guarda existem.
Então, de vez em quando, essa sensação volta na presença que sinto perto de mim de Benjamim, em diálogos protegidos e plenos em sua simplicidade e espanto.
Anjo da guarda de Bernhard Plockhorst
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